“É que o som Invade a gente”

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“Posso me apaixonar pelo som das palavras”

 

Este é nosso último dia no Rio de Janeiro.

Para mim e as crianças, férias. Para o nosso Cyborg, trabalho intenso no computador e horários definidos na agenda para nos acompanhar em alguns passeios.

Para nós dois, um período intenso de trabalho interior e exterior. O melhor de nossa vidas, ao lado das pessoas que amamos muito.

Um período muito feliz.

Sonoramente, um período riquíssimo de descobertas, redescobertas, experiências e deslumbramentos sonoros, como diz a querida Lak Lobato.

Foram sons dos mais diversos tipos e eu tive a gratíssima oportunidade de acompanhar, de aprender a diferenciar quando era um som novo, quando era uma experiência nova com um som já conhecido, ou quando eram as duas coisas juntas. O olhar muda. A expressão corporal entrega o interesse. E o sorriso completa a ação de ouvir, reconhecer, experimentar pela primeira vez um determinado som. As mãos se movem como se aquela vibração pudesse ser tocada em vez de tocar o corpo ainda que não se queira.

Os sons mais tocantes para ele foram: o mar, o sino da igreja da matriz, os passarinhos do quintal, o áudio dos vídeos que ele precisava assistir para realizar seu trabalho, as vozes das criancas brincando, o latido dos cachorros da casa dos meus sogros, a voz fraquinha do avô dele já com 80 anos, mas tão doentinho e fraco…

No entanto, creio que a melhor das descobertas foi quando ele concluiu uma experiência dessas dizendo:

“Mas é que o som invade a gente, né? Eu pensava que era só a vibração dele no nosso corpo, mas não. Com o olhar, podemos desviar sem precisar fechar os olhos e então, veremos somente o que quisermos. Com o som, não. Eu preciso decidir se quero escutar tudo, ou nada. Não tem escolha. Só desligando o IC.”

Essa constatação tem um peso incrível. Se pararmos para pensar, quando ele fez a escolha pelo IC, depois de muitos anos de estudo e pesquisa, depois de conversar com pessoas tão importantes na nossa vida. Ele precisou, nós precisamos, decidir entre perder de vez os 10% de audicão natural em cada ouvidopara ganhar o mundo com o som mais amplo e potente que o IC oferece, ou permanecer com os seus 100% de oralizacão, mas sem ouvir a voz dos próprios filhos (o real motivo pelo qual ele fez o IC).

Libras? Faz parte da vida. É mais uma língua importante como o Inglês, o Português… Não mudou nada. Ele continua usando normalmente. Eu e nossos filhos também. Somos bilingues. O IC não afeta em nada. Bem, também usamos outras línguas, na verdade. O Lobo me chama até de ” troglodita” (mais do que bilingue e menos do que poliglota… Eu acho. hehehe) por isso.

Nesse tempo todo, o que percebo é que o IC mexe muito com uma área importante da audição: o Coração.

“Ouvir com o IC é decidir por aceitar um milagre” – o meu Cyborg Particular acaba de poetizar aqui do lado.

Ele leu parte do texto e foi falando sobre como é ruim ter que tirar o aparelho para poder entrar no mar, porque daí, se perde o som das crianças brincando, das pessoas conversando, do vento nos cabelos, da água e das ondas do mar. Ele ama o mar e seu som outrora desconhecido… Então, comecou a falar sobre como ele estudou, leu, conversou com pessoas queridas e muito importantes na nossa jornada até o IC. Lembrou do Roner Dawson, Raul Sinedino, Silvia Mara, Samuel Lima, Lak Lobato, Anahi Guedes e os amigos dos grupos de discussão antigos do Yahoo… Tanta gente que ajudou muito, mas influenciou pouco, uma vez que o espírito analítico e estudioso dele nunca permitiu se deixar levar apenas pela situacão dos outros. A grama verde dos vizinhos nunca o atraiu, apesar de interessar e inspirar muito.

Estava aqui dizendo que o momento dele foi o melhor de todos. Que já pensou como seria se tivesse feito antes. Mas, conclui que foi na hora certa, na melhor hora.

O que sei dizer é que, realmente “o som invade a gente”…

Vê-lo rir e se emocionar com um som. Logo depois lembrar o quanto isso é possível hoje, graças ao IC… Saber que tomou a decisão certa e conseguir aproveitar cada uma dessas coisas é algo inspirador.

A cirurgia envolveu ansiedade e esperança, mas nunca medo, ou insegurança. A todo momento, mesmo nos mais difíceis em que quase caimos nas garras de uma péssima profissonal, tivemos a certeza de que o controle da situação sempre esteve em nossas mãos. E tudo correu muito bem. Graças a Deus.

Quando o conheci, embora a família sempre fosse unida e carinhosa, as conversas eram limitadas e relativamente curtas. Sempre diretas e resumidas para facilitar a compreensão. Embora ele falasse muito, era notável o carinho com que todos se esforçavam para a compreensão dele fosse mais fácil do que a dureza que era na rua, onde todo surdo sabe como a dificuldade de comunicação e acessibilidade são sofridas até demais, quando tem. Tudo era feito com muito esforco e carinho, mas tinha limitações. Nessas férias, vi e ouvi risadas, imitações de sons, conversas longas, reconhecimento de vozes, brincadeiras por compreender um som engraçado… Realmente, uma festa sonora.

O brilho dos olhos de todos em volta, a serenidade de quem pode ter uma conversa sem a tensão de perguntar toda hora: “Entendeu?” e os pedidos dele para eu falar mais baixo são tesouros inestimáveis que só quem vive essa situação pelo lado de cá consegue entender.

E o som continuará a nos invadir. Atrevido, gostoso, apaixonante. Bom, ou ruim. Mas sempre invasor de corpos e eletrodos, mostrando ao cérebro que ouvir é sem pedir licenca.

Até mais.

Espero vocês para mais um papo Do Lado de Cá do IC.

 

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