Eu Não Mereço Ser Estuprada

Ha uma historinha sobre negros que diz mais ou menos assim:

– Quindin? Ocê sabe quar a mio coisa que tem?
– Sei não, Ioio. E bolim?
– Não.
– Eh docim?
– Não. É cavalo.
– Pruque?

– Pruque se num tivesse cavalo, o branco muntava nos nego.

Ser mulher, também vai mais ou menos por ai.


Na maioria das vezes, e muito difícil. Nas outras, chega a ser um fardo. Um fardo pesado, que tantas vezes nos custa a vida. Ate nos chamam de égua(puta)! De cachorra(puta), de cadela(puta), de gata (puta que faz cu doce)…

Quando não e assim, levamos a culpa ou a responsabilidade por quase tudo o que nos acontece.

Atualmente, o famoso “Ele não sabe porque esta batendo, mas ela sabe porque esta apanhando” foi substituído pelo “comportamento de risco”, ou pelo “fez por merecer”, “estava provocando”…

 

estupro

 

Também, numa sociedade em que as tais “pessoas de bem” ditam as regras de convivência: para os “humanos direitos” tudo; para os outros a justiça (de acordo com os conceitos deles, diga-se de passagem)…

Ha uma espécie de autorização perversa da sociedade, uma justificativa que cala as consciências e mantém o machismo vigente e dominante em considerar que a vitima seja seu próprio algoz. Como se fosse quase um suicídio, de forma que a pessoa mereceu o que foi procurar. No caso, o estupro.

Como assim?

“O que ela fazia na rua ate aquela hora?”, “Também, com aquelas roupas…”, “Ela quem provocou”, “Ela nunca prestou mesmo…”, “Ha ambientes adequados para usar roupas sensuais. Ela estava pedindo”, “Se vai para a balada e bebe, é porque esta querendo”, “Ela sabia que o amigo já estava a fim dela. Porque foi beber?”, “Se estivesse em casa nada disso teria acontecido”, “Quem manda ser tão namoradeira?”
Vamos la:

Estava voltando do trabalho, escola, passeio, festa, da puta que o pariu! Não interessa! O direito de ir e vir é constitucional. Ainda que o mundo esteja violento, ser mulher não é motivo pra ter medo de sair de casa, seja a hora que for. Tanto que, em Brasília, os estupradores de rua (e mesmo os de casa) costumam atacar logo depois do almoço.

Com roupa, com bata, com burca… Não faz diferença! A roupa é apenas uma desculpa. Tem gente que tem fetiche por pés e nem por isso sai estuprando.

O que seria exatamente “provocar”? Penso muito nisso. Até por que, toda mulher pensa quando vai escolher roupa. Ou vocês acham que a demora em se vestir é mera falta do que fazer? Se fica colorido, provoca; se fica curto, provoca, se fica neutro, provoca; se fica tem decote, provoca; se não tem, provoca… Temos que pensar sempre em quem vamos ver e que tipo de reação podemos “provocar”. Porque ninguém nos pergunta o que estamos pensando, ou fala de interesses comuns. Ninguém nos olha nos olhos e diz “bom dia”. Começam pelos pés, pernas, param nas áreas de maior interesse, cobertas ou não, e depois que a gente fala a primeira palavra, lembram-se de nos cumprimentar. E nem interessa se estamos feias, bonitas, gordas, magras, bem arrumadas, mal arrumadas… Sempre teremos nosso corpo avaliado a distância em primeiro lugar. Isso já é uma invasão do nosso corpo e já nos expõe a todos os riscos possíveis. E não podemos ser culpadas por isso.

Há ambientes adequados para cada tipo de roupa sim, mas isso é mera convenção social. Vide os estupradores de freiras, crianças, idosos e até de animais. Nenhum deles trazia uma placa dizendo que queria ser estuprada. Tampouco usava roupas chamativas ou sensuais.

Se uma mulher vai para a balada é porque quer dançar. Se ela quer alguém, ela chega perto e conversa. E SE ELA BEBE E PORQUE E LÍQUIDO, DIABO!!

Se um suposto amigo se aproveita do porre de uma mulher, já demonstra que não tem nada de amigo. Ainda por cima, tem aqueles que embebedam e colocam substancias tóxicas nas bebidas para facilitar as coisas. Se ela sabia que ele estava “a fim” e a coisa não foi adiante, certamente é porque ela NÃO QUERIA! E se bebeu em companhia do “amigo” era porque acreditava que ele fosse amigo de verdade e faria a coisa certa. Afinal, ele nunca pegou os amigos homens dele só porque estavam bêbados. Alias, a frase esta errada: não e o cu do bêbado, e sim o da bêbada que parece não ter dono. MAS TEM!

Em casa acontecem de 70 a 80% dos casos de abuso e estupro. Ponto.

Ter um, dois, três, dez mil namorados, ficantes, passantes, peguetes e o que for não é motivo para ser considerada de livre acesso e uso por parte dos demais. Ponto.

Isto posto, percebe-se que todos os comportamentos considerados “de risco” para mulheres, são comuns entre os homens e NINGUÉM QUESTIONA.

Ser mulher já nos expõe totalmente ao risco do estupro. Como já disse acima, de 70 a 80% dos tais estupros são efetivados por pais, parentes, amigos próximos, vizinhos, babás, colegas de trabalho e pessoas com algum tipo de proximidade ou acesso fácil à vitima. Ou seja, não importa o que a pessoa esteja vestindo. O restante, e feito por pessoas em profundo desequilíbrio soltas na sociedade. E, normalmente, são pessoas que já abusaram/abusam de quem estava próxima e agora esta tão louco que se torna incontrolável, embora, aparentemente, esteja normal e leve uma vida insuspeita. São psicopatas baseados no machismo e apoiados por ele. Gente que abusa da amiga bêbada (quando não a embebeda de propósito), da mulher mais chamativa na balada, que xinga, bate, estupra, mata aquela que lhe deu um fora, que pensa que batom vermelho e coisa de puta, que faz cantadas indecorosas e humilhantes no meio da rua, que acredita que não ofende cheirar/passar a mão no corpo, no cabelo, puxar pela mão ou pelo braço de outras pessoas .

Pra você ter uma ideia, outro dia eu estava de calca jeans folgada com o restante do corpo coberto pelo guarda chuva enorme. Mesmo assim, ouvi um grupo de homens falando das minhas pernas e dizendo que atiçava muito o fato de o restante estar coberto. O que eu fiz para isso? Estava no meio da rua, na chuva e toda coberta!!!
A maioria dos abusadores de crianças põe a culpa na criança!!E o que ela fez para causar isso!?!?!
Há lugar para cada tipo de roupa sim. Mas isso é mera convenção social. O estuprador tem suas preferências. A roupa é mera desculpa.
Senão, que dizer do psicopata que estuprava somente freiras há um tempo atrás? O que elas fizeram?

Não. O risco não se evita, tampouco diminui por causa da roupa.

A verdade e que sempre haverá um motivo porque o importante é ridicularizar, diminuir, depreciar e culpar a vitima. O comportamento do opressor conta com o aval de uma sociedade que libera o homem para ser o mais primitivo possível.

Enquanto cobra da mulher uma posição de consciência, cuidado, racionalidade, permite ao homem que seja “instintivo” e culpa a mulher por ser isca fácil.

Uma resposta maravilhosa que vi de uma mulher indignada e que postou no facebook quando um “pai” ensinava seu filho pequeno a cantar mulheres na rua (depois diz que as mães é que educam homens machistas…) foi: ” Menino, lembre-se que a mamãe também anda sozinha na rua. Você gostaria que alguém falasse assim da sua mãe?” E para o homem: ” Talvez você tenha uma filha e uma esposa, ou uma irmã. Certamente tem uma mãe. E elas estão sendo vitimas de pais como você.”

Mas, infelizmente, os homens matam até suas esposas e filhas…

O mundo só não está perdido porque há homens bem criados e conscientes. Há pessoas respeitadoras e que protegem as mulheres que estão à sua volta. Sejam elas de seu convívio mais próximo, ou meras estranhas que são tão dignas e merecedoras (aí sim) de respeito quanto qualquer pessoa.
Não, pera! Proteger? Mas as mulheres nao querem igualdade, liberdade, etc, etc,etc…

Sim, e dai? Protegendo-nos uns aos outros somos mais fortes. Mulheres devem proteger os homens e meninos do machismo incrustado na nossa criação. E que se tornou tão intrínseco que já nem parece mais tão errado assim. Virou conceito praticado diária e inconscientemente.

Homens devem proteger mulheres e meninas daqueles que ainda vivem como trogloditas civilizados. Analfabetos emocionais funcionais que ainda estão encavernados no instinto e no preconceito.

Mulheres devem defender e ajudar umas àsoutras. Praticar a tal sororidade. O amor de irmã para irmã.

Atos diários e que fazem a diferença. Culpar a vitima e transformar o algoz em mero autómato que responde a estímulos externos tornou-se a pior humilhação que alguém pode sofrer.

Por isso: Não. Eu nao mereço ser estuprada.

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