Vamos Pensar um Pouco – Cultura de Estupro

A Cultura de um povo, no sentido de formação sócioeducativa e formadora dos usos e costumes dele perpassa a ideologia de gênero vigente. Aquela que diz quem e o quê é adequado, aceito e correto numa sociedade. Que define o que vestir, o que comer, como se portar, quais os direitos e deveres de cada cidadã e cidadão, e, principalmente, como devem ser tratados cada um deles segundo seu papel e representatividade nessa mesma sociedade.

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Desta forma, um conjunto de ações inconscientemente aceitas, porém claramente ensinadas e preservadas ao longo das gerações, cria uma cultura que atravessa o tempo e atinge as pessoas diretamente ligadas a essa cultura de forma positiva ou negativa. São atos baseados em crenças que vão da simples definição, à mais pura prática violenta de punição verbal ou física aqueles indivíduos que, de alguma forma, desafiaram o contexto.

Daí que, de forma geral, a violência contra a mulher (à mulher negra, à trans, às LGBTS e a toda pessoa que foge do estereótipo), ou a quem questiona os usos e costumes humilhantes e desrespeitosos provindos dessa Cultura antiga, mundialmente aceita e promovida como normal, se torna cada vez mais forte e evidente na forma de culpabilizar a vítima; encontrar motivos que justifiquem os atos violentos; desqualificar a pessoa; criar mecanismos de defesa pessoal dos vulneráveis em vez de reeducar a sociedade; dentre tantas práticas que jogam o peso da responsabilidade do ocorrido sobre os ombros de quem sofre e não de quem pratica, incentiva, ensina a ser dessa forma.

Cultura do Estupro é praticamente a história da humanidade inteira, desde quando Eva tomou a culpa por Adão.

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A Estrada de Lalita

Há oito anos eu era só pranto e dor… Pela sexta vez, saía do hospital com braços e ventre vazios.
Sem descobrir o motivo de não conseguir manter uma gravidez e com uma tristeza e confusão tão grandes, nós dois entramos na sala do Dr. Leonardo Campbell, um médico que teve a delicadeza de perceber a nossa dor e que esclareceu cada procedimento que seria feito comigo a partir de mais aquele aborto espontâneo. Ao contrário das várias pessoas que nos trataram com a violência obstétrica de cada dia (agravada pelo fato de eu ter cara de estagiária com trinta anos na cara e um marido barbado que parecia mais velho, o que fazia que nos tratassem como irresponsáveis vindos de alguma clínica de aborto clandestina, ou tivéssemos tentado por conta própria e deu errado), ele levantou-se, sentou-me na cadeira com muito cuidado, recebeu o Emanuel e explicou direitinho o que seria feito. Explicou que já não estaria mais presente na hora da curetagem, mas que me deixaria nas mãos de um de seus melhores colegas e assim o fez. A dor era grande, mas o acolhimento daquele profissional foi um alento e tanto. O procedimento foi feito e, como ele prometera, na manhã seguinte estava lá sorrindo e me prometendo que isso iria passar. Conversou com meu marido e disse que poderíamos fazer uma tal “gravidez de doze meses” com acompanhamento dele. Orientou para que eu me recuperasse e voltasse a ele quando estivesse pronta para engravidar de novo, pois esse não era o meu problema. E nos ajudaria a manter nosso bebê na barriga até que ele estivesse pronto. Disse que eu poderia engravidar dali a três meses porque minha saúde era perfeita. E me deu alta um dia depois.

Saímos do hospital tristes e confusos, mas pensativos sobre essa possibilidade. Pesquisei sobre a tal gravidez de doze meses, mas ainda sofria muito. Já era a sexta tentativa a dar errado… E, dessa vez, quase passamos os cinco meses… Fiquei um mês inteiro muito mal emocionalmente. Emanuel segurou a onda firme.

Depois de um mês, resolvi começar esse acompanhamento.  Três meses depois, estavamos grávidos outra vez! Que medo!

Mas Leonardo, que à época se especializava em oncologia ginecológica, estava ao nosso lado, sempre sorrindo e tranquilo. Minha gravidez era de risco. Ele queria me passar para uma colega, mas eu só me sentia segura com ele. Então, ele ficou conosco até o fim.

A cada mês, quando tentávamos parar de tomar os medicamentos para manter a gravidez, era um susto maior. Bastavam dois dias sem o inibina, ou o dontac para as contrações começarem. Foi cada susto…

Até que, numa bela manhã do dia 09 de abril de 2009, às 9:24, pelas mãos do meu anjo protetor dos partos, veio ao mundo a Lalita Pequenita. A nossa Laurinha, que é uma florzinha a completar sete anos de idade com saúde, alegria e muito charme.

Uma bebê tão animada fora quanto era dentro da barriga. Tanto que, aos quase sete meses, ainda não sabíamos se era menina ou menino. Até o Vídeo da Ecografia quRsrs editei falava disso… Rsrs

E a música tema dela não poderia ser outra senão, A Estrada, do Cidade Negra. Além da hilária Eu Me Remexo Muito. Pq, né?

Neste dia, em que minha gatinha acaba de sair da primeira infância, já caminhou um bom bocado, mas está apenas no início de sua estrada, só tenho a agradecer por esses anos de tanta alegria, tanto amor, tantas conquistas, crescimento e aprendizado.

Lalita, você é o sol que faltava em nosso jardim. Você é a minha “coisinha boa”, minha “Lalita Pequenita”, minha ” Florzinha”, “Meu Presente de Deus”. Te amo muito, filha.

Deus te abençoe e proteja hoje e sempre. Feliz aniversário.

 

Processos de Perdão

A gente não sabe perdoar.

A gente não sabe nem perdoar a si mesma.

Porque perdão envolve realidade demais.Desilusão. Não no sentido afetivo. Mas, no significado filosófico da desilusão.

Exige ver as coisas como elas são. Não conforme o nosso lado da história.

Dói.

Primeiro na gente. Primeiro em reconhecer que as coisas foram como foram porque cada um só queria falar, ter a sua necessidade satisfeita primeiro, fazer do seu jeito porque, em tese, há o jeito errado de fazer as coisas e o NOSSO  jeito de fazer as coisas.

Porque o outro é que não quer entender nem escutar; porque se fizesse do meu jeito é respeitasse quem eu sou, não teria dado tão errado; porque “quem mandou essa pessoa depositar todos os seus sonhos e esperanças em mim, que não dou conta nem da minha vida direito”; porque essa pessoa é egoísta e não pensa em mim primeiro; porque, porque, porque…

Perdão exige ausência de porquês…

Perdão exige olhar pra dentro e dizer:”Fiz merda. Melhor reiniciar o jogo do zero.”

Perdão exige entrar de cabeça na fossa. Curtir a sofrência, beber ao defunto e reconhecer que ninguém estava certo.

Nem errado.

Perdão exige colocar a mágoa no divã.

Exige: rever os fatos históricos sem querer ter razão; sorver até o último gole da desilusão para enxergar o terceiro lado, o da verdade absoluta; mergulhar na taça da sofrência silenciosa; afastamento para se perdoar primeiro; empatia para reconhecer que é preciso ouvir o outro com escuta ativa antes de opinar; dar o primeiro passo.

Perdão é um processo de silêncio interno onde a gente primeiro deixa de querer mal. Pra só depois, bem depois, muito depois, talvez aprender a querer bem. Seja a nós mesmas, seja às outras pessoas.

Reflexões em Dias de Cólicas

Não fui a nenhuma manifestação de lado algum. Eu só faço trabalhar e nunca estou disponível.

E justo nessa última, eu estou mesmo é morrendo de cólicas.

Então, sob o efeito de remédios, ponho-me a expressar o que penso. Coisa perigosa nestes tempos de bicudos e voadorad apenas por conta da cor que se usa.

Mas, é triste a situação…

Triste chegar ao ponto de ter que escolher o menos pior. Triste ver que tudo isso não passa de corrida adiantada para as eleições de 2018. Uma polarização criada para eleger um herói nacional de oposição que faça frente à Lula e Dilma, na tentativa de retomada do poder que por tantos anos foi da direita…
Lula manteve-se em campanha por três períodos eleitorais e foi crescendo até se eleger, meio que como um paralelo. A estratégia agora da direita também é essa. Só que eles tem pre$$a e recur$o$o$ para fazer a coisa andar mais rápido. Seja pelo impeachment, seja por essa corrida eleitoral que se iniciou no dia da posse da presidente Dilma.
Eu aposto na dupla Bolsonaro/Feliciano como os próximos “paladinos da justiça e da moralidade cívica do povo brasileiro” para fazer frente à Dilma/Lula em 2018. É o cenário que parece estar se desenhando.
Seria possível alguma reação fora da polarização se Ciro Gomes se juntasse a alguém de algum dos únicos quatro ou cinco partidos até agora não citados em escândalos (PSOL, PCO, PCB e mais dois que esqueci agora).
Marina Silva, vulga tartaruga sem casca, conseguiu se apagar de um jeito que é até melhor ela ficar onde está mesmo. Seja onde for.
Jandira Feghali me vem à cabeca, mas nem sei o porque. Depois vou dar uma lida a respeito pra lembrar dela com propriedade.
E, por fim, o povo brasileiro fica de joguete nas mãos dos interesses políticos de quem, de um lado, quer fazer voltar um sistema desigual e ditatorial, ou, por outro, está enfraquecido por alianças que acabaram por nublar as várias conquistas populares que tornaram o país a oitava potência mundial.
Enfim, salvo por alguns idealistas de ambos os lados, vivemos a campanha eleitoral, não a luta ideológica pela democracia e o estado de direito.

Uma Situação Inusitada no Facebook

Era o dia 22 de setembro de 2015 quando eu vi uma linda postagem na página de facebook do Quebrando o Tabu, me senti extremamente tocada com a fala desta poetisa chamada Sabrina Lopes e, inspirada pela beleza do poema, resolvi comentar com o texto que vai logo abaixo.

Resultado: 5 (Cinco) meses depois, há 354 curtidas e 19 respostas dos mais diversos tipos  e fofuras no meu comentário. Eu complementei o texto no meu perfil e o meu amor também escreveu uma parte muito linda. Para não ficar grande demais, eu vou postar o texto que foi para o meu perfil depois.

Por agora, fiquem com o vídeo e o texto original de Sabrina Lopes. Logo abaixo, o meu texto, que causou esse frisson que até agora eu, simplesmente, ainda não consigo entender.

Eu Não Sirvo Pra Casar (o vídeo)

Um dia, um homem me disse que eu não era uma mulher pra casar.
Pensei, pensei, pensei e concordei, realmente, eu não sirvo pra isso ou pra aquilo, afinal eu não tô aqui pra servir!
Casamento pra você é serviço, contrato firmado? Depois de contratada, a mulher tem que ficar calada; o trabalho é todo dia, horário do almoço é à beira da pia.
Lavar, passar, cozinhar, limpar e a noite, reprodução. Saber chupar, transar, fazer gozar, engravidar e, logo, ter filhos para cuidar.
É em tempo integral, sem benefícios, sem direito a vale emoção ou vale sorte e as exigências não param por aí.
É preciso trabalhar perfumada, bem arrumada e estar sempre bem humorada, a imagem da empresa não pode ser manchada.
Sendo assim, prefiro ser minha, ter a carteira do cartório vazia, levar o sobrenome de vadia a me casar como alguém como você; sexista, machista, conservador.
Conserva a dor. Absorve minha vida, observa a ferida, me quer serva e de quebra bem servida.

Sabrina Lopes

E este foi o texto que eu escrevi em resposta:

Este vídeo realmente me inspirou. Mas, apenas porque eu, que não servia para casar, finalmente (apos quatro anos de namoro e três pedidos de casamento da mesma pessoa, bom sinal) casei-me com um homem incrível a quem também foi dito que ele não se casaria, não constituiria família porque ele nasceu surdo. Essa história é longa, mas eu peço permissão para colocar aqui o texto que saiu inspirado por essa fala massa pra caramba que foi minha vivência até os 28 anos de idade, quando me casei. E que culminou num casamento feliz com um homem que não tem nada a ver com esse homem (tão comum) do texto que ela fala. Porque o importante não é casar. É continuar a ser feliz com boa companhia.
Segue meu texto:
“Eu não servia pra casar.
Não com esses homens que o status quo me dava.
Daí, um dia, eu, que já não servia,
encontrei um rapaz a quem também foi dito lá na infância,
que casar era um sonho sem importância
porque sua vida não serviria para nada.
A deficiência definiria sua estrada.
Por causa do preconceito que emudece.
Por causa da cegueira do capacitismo.
Por causa de rótulos e tantos “ismos”.
E nós, que não servimos,
Temos a casa zoneada
Andamos juntos
De mãos dadas
Doidos, imundos
De alma lavada
Fazemos amor como quem brinca no parque
Temos filhos como tesouros colhidos no arco-íris
Fazemos da vida o bonde, onde o embarque
Depende da vontade e do amor de ambos.
Nossas cabeças não comportam nossas mentes.
E, por isso, nos casamos. Voamos.”

Casamento ou Amor? A Nova Geracao de Mulheres

O Casamento sempre foi ensinado e imposto como um sonho e uma realização de vida para toda mulher. Sempre foi acalentado com carinho e tornado o sonho dourado que se tornaria, muitas vezes, o ponto culminante de toda uma vida feminina.

Depois da revolução sexual, este tabu ficou um pouco estremecido, no entanto, ainda era um sonho acalentado pela maioria das mulheres. O problema é que este é um sonho que não se vive só. Ele, por ter a  hipótese de ser um sonho que se sonha e que se vive só, embora acompanhada, muitas vezes torna-se uma realidade demasiadamente insuportável. A mulher vivia sob a pressão das convivências forçadas em nome de um status, dos filhos, da cobrança da família, de uma suposta solução para os problemas, ou mesmo a tentativa sincera, ainda que unilateral, de solucionar os problemas conjugais e retomar a união favorável e feliz para ambos que havia no início do relacionamento.

Nem sempre há motivos suficientes para manter um casamento sólido e duradouro, sob a égide dos “Felizes para Sempre”, tao almejado e querido por todos. Afinal, não se faz um investimento tao alto de recursos materiais, afetivos, espirituais para deixar pelo caminho como se fora coisa descartável e sem valor. Diversos fatores tornam uma convivência em comum, um fardo insuportável e desnecessário na vida das pessoas. E, enfim, chega-se à separação.

O Divórcio no Brasil  tem uma história relativamente longa, mas um crescimento muito recente, apesar de acentuado, nos últimos tempos. Ele viu seu maior crescimento, 200%, na última década, mas desde a década de 80, depois que a legislação de 77 tornou menos complicada a burocracia envolvida nos processos de divórcio, desquite e separação, este numero vem crescendo gradativamente.

Antigamente, uma mulher desquitada, separada, ou divorciada era alvo de extremo preconceito, uma vez que a suposta “culpa” pelo insucesso do relacionamento era sempre atribuída à mulher que não soube “segurar seu homem”. Essa é mais uma versão do famoso, e machista, dito: “ela pode não saber porque apanha, mas ele sabe porque bate”. Afinal, se fosse uma boa esposa, não teria sido abandonada. Nunca ocorria que a esposa pudesse ter pedido a separação.

Da mesma forma, não se cogitava com quem ficaria a guarda dos filhos. E se houvesse objeção ao fato de que a mulher deveria ficar com eles, normalmente, o marido perdia a guarda em todas as instancias a que recorresse. Infelizmente, até hoje, embora a Lei da Guarda Compartilhada já seja uma realidade, caso uma mulher admita que precisa, ou prefere que seus filhos fiquem com o pai por ter um ritmo de vida incompatível com a qualidade de vida que os filhos merecem e que pode ser melhor oferecido pelo pai, ela será alvo das críticas mais duras e mais mesquinhas possíveis e imagináveis.

Casamento e Divórcio permanecem cercados de muitos tabus, convenções e preconceitos. Ainda assim, nota-se um crescimento impressionante nos casos de ambos. Os casamentos aumentaram em quantidade, mas duram menos. E as mulheres pedem a separação na maioria desses casos.  Ou seja, elas querem sim, se casar, mas não estão mais presas à instituição do casamento como indissolúvel e necessário para o seu sucesso e realização pessoal a qualquer custo.

Atualmente, as razoes para uma mulher decidir se casar passam bem distantes, embora ainda haja, das razoes tradicionais. Claro que ainda há quem se case, por dinheiro, pressão familiar, sonho de infância, necessidade de companhia, etc. No entanto, o Amor, o Companheirismo, a Amizade sincera e a Empatia mútua têm tomado papel importante nos relacionamentos.

A mulher da atualidade trabalha, é independente financeira, intelectual, sexual e materialmente; muitas vezes, mora sozinha, ou com amigas e amigos; deixa para se casar um pouco mais tarde; contrata o encanador, o bombeiro hidráulico, o mecânico, os serviços domésticos; paga suas próprias contas; sai  sozinha para bares e restaurantes sem ser considerada indecente por não estar acompanhada de uma presença masculina; cresceu em uma família reconstruída após um divórcio, ou sem a presença masculina do pai e provedor tradicional; chefia a maioria das famílias brasileiras; sabe que, mais do que uma instituição, o casamento é um relacionamento entre duas pessoas que lutam pelo mesmo ideal.

Ela já não quer mais o status de casada. Ela quer o melhor que o casamento pode oferecer. E luta com todas as suas forcas para que esse relacionamentantcerto da primeira vez para sempre.

Sabe que tem que se esforçar, ceder, contornar, tolerar, mudar, exigir, construir diariamente o relacionamento perfeito que ela deseja. No entanto, não é mais aquela “mulher de verdade” que ia dormir soluçando baixinho para não incomodar o marido que dormia roncando alto ao lado. Ja não se culpa mais por não conseguir “segurar seu homem”. Ela espera que seu parceiro (a) faca o mesmo esforço, que demonstre viver e acalentar o mesmo sonho que ela.

A mulher moderna já não tem medo de perder o companheiro (a). Ela tem medo de perder o Amor, a sua história construída em conjunto, o grande investimento feito e até mesmo de sofrer a decepção de ter de recomeçar. Porem, a possibilidade de recomeçar é ainda mais atraente do que a certeza de continuar a viver uma situação desfavorável e triste. Ela entende que o fim é a chance de um novo recomeço e tem a convicção de ter feito tudo o que estava ao seu alcance para solucionar a situação antes de partir para novas experiencias de vida, seja em companhia de um novo amor, ou não.

A ordem inverteu-se e, agora, casar-se já não é condição sine qua non para ser feliz. Já não é mais a causa da felicidade. É um resultado dela. Esta numa lista de itens em que, muitas vezes, não é prioridade. Mas, item básico para a finalização de um processo muito mais longo e profundo. Passou de ” happy ending”  a “just beggining”

Dia Internacional do Implante Coclear, vulgo Dia do Cyborg :D

Escadaria


Muito antes do Implante Coclear, houve um longo e Sacro Ofício.
Uma mãe, um pai e uma irmã prepararam com carinho e dedicação incansáveis a prova de que “não precisa ouvir para falar”
Um trabalho de vida. Uma vida de dedicação. Um amor que vai muito além da obediência e da compreensão. Obrigada por me fazer tão feliz. E por ser peça fundamental na vida de sucesso de Joaquim Emanuel. Sem teus pequenos grandes gestos teria sido muito mais difícil, Viviane Torres.

Sem a sua coragem e determinação diante do diagnóstico dito de forma tão cruel e fria, determinando para sempre a invalidez do seu filho, nada disso teria sido possível, Maria Amélia.

Sem o seu coração de ouro e a coragem de ir até o fim do mundo pelo seu filho, carregando a família toda junto…
Sem os teus passos, como ele daria os dele, Joaquim Barbosa? Como chegaria até a mim?

Essa foi uma postagem que fiz no facebook para comentar sobre a foto acima, postada pela minha cunhada, irmã do nosso Cyborg,  que fala sobre as lembrancas dela de quando ele fazia o tratamento fonoaudiológico para oralizacão e desenvolvimento da fala e compreensão por meio da leitura labial quando ele era crianca.

E isso é para falar sobre um encontro muito bonito que tivemos em outubro de 2014, num  sábado muito agradável no Parque da Cidade com uma família que está ainda no período pré-implante. Conhecemos o Leonardo e a Catarina, mais a bebezinha mais nova deles.

Eles foram-nos indicados pelo pessoal da clínica do Dr. Fayez e pela amiga em comum, Renata Matos.

O fato é que conversamos muito a respeito das expectativas, frustracões e alegrias que o IC pode trazer para uma pessoa adulta, muito bem oralizada, com perda profunda e que não faz uso de LIBRAS, como é o caso da Catarina.

Lembramos muito de quais são as etapas da Vida que contribuem direta e indiretamente para o sucesso, ou fracasso da experiência com o IC. E, principalmente, de como a decisão de fazer o IC é definitiva, uma vez que a perda profunda ou severa torna-se anacusia, ou seja perda total e irreversível da audicão.

Nossos novos amigos tiveram uma prévia de casos muito interessante. Conheceram pessoas que não tiveram um ganho tão interesante e nem o  sucesso esperado imediato.

E conheceram a gente.

O tempo passou e eles não entraram mais em contato conosco. Também mudamos de telefone e não falamos mais com eles.

Mas, hoje, 25/02, no Dia Internacional do Implante Coclear, eu gostaria de parabenizar a todos que, de alguma forma, tiveram a coragem de enfrentar o novo. Lutar por ele. Desejar conhecer o que é receber os estímulos sonoros desse mundo tão maluco em que vivemos. Ouvir os sons das pessoas queridas. Rir de entender o motivo porque alguns sons irritam. Irritar-se e achar graça de como é diferente perceber que todo som é música, mas que algumas músicas são mais agradáveis do que outras….

Ouvir é um desafio que esses guerreiros cyborgs aceitaram para si.

Ser feliz é construção pessoal. É enfrentamento de si mesmo. É aceitar lutar pelo novo, sem perder as raízes do velho.

Citando Arnaldo Barros, do Surdodum, na belíssima música Surdalma :

“Para se renovar, a obra se conserva, a moldura é que muda.

Há um pranto no planeta, pois ninguém planta uma muda.

 Surda é a alma que não ouve.

Será, também é muda?”

 Parabéns, meus queridos Cyborgs Clocleares.